Discurso indireto (concordância de tempos)
B2O que é discurso indireto (concordância de tempos)?
Discurso indireto é a forma de transmitir o que outra pessoa disse sem usar aspas e sem reproduzir palavra por palavra. Em vez de: «Maria disse: “Estou cansada”», usamos: Maria disse que estava cansada. A expressão "concordância de tempos" (ou "sequência de tempos") refere‑se às mudanças que normalmente fazemos nos tempos verbais, pronomes e expressões de tempo/lugar ao passar do discurso direto para o indireto.
Verbo introdutor: é o verbo que introduz o discurso (dizer, afirmar, perguntar, pedir, ordenar, etc.). A forma do verbo introdutor (presente, passado, futuro) determina muitas vezes se os tempos mudam ou não.
- Para resumir ou relatar uma fala sem citar literalmente.
- Para integrar a fala de outra pessoa numa frase maior (boa para relatórios, resumos, conversas).
- Para adaptar pronomes, tempos e referências de lugar/tempo ao novo contexto.
Exemplo simples:
Direto: João disse: "Vou ao cinema amanhã."
Indireto: João disse que ia ao cinema no dia seguinte.
Explicação rápida: ao relatar com um verbo no passado (disse), normalmente deslocamos os tempos (vou -> ia; amanhã -> no dia seguinte).
- Presente do indicativo → Pretérito imperfeito do indicativo
- Direto: «Eu estudo todos os dias.»
- Indireto: Ela disse que estudava todos os dias.
- Presente progressivo (estou a / estou + gerúndio) → Pretérito imperfeito progressivo
- Direto: «Estou a estudar para o exame.»
- Indireto: Ele disse que estava a estudar para o exame.
- Pretérito perfeito simples → Pretérito mais‑que‑perfeito composto (tinha + particípio)
- Direto: «Comi a sopa ontem.»
- Indireto: Ele disse que tinha comido a sopa no dia anterior.
- Pretérito imperfeito → Pretérito imperfeito (normalmente sem alteração)
- Direto: «Quando era criança, brincava na rua.»
- Indireto: Ela disse que, quando era criança, brincava na rua.
- Futuro do presente simples → Futuro do pretérito (condicional simples)
- Direto: «Chegarei amanhã.»
- Indireto: Ele disse que chegaria no dia seguinte.
- Futuro perifrástico (vou + infinitivo) → ia + infinitivo (ou ficaria + infinitivo)
- Direto: «Vou viajar amanhã.»
- Indireto: Ele disse que ia viajar no dia seguinte.
- Futuro do subjuntivo → Imperfeito do subjuntivo
- Direto: «Quando eu for a Lisboa, conto‑lhe.»
- Indireto: Ela disse que, quando fosse a Lisboa, contaria.
- Imperativo afirmativo → Subjuntivo (normalmente imperfeito do subjuntivo) ou estrutura com "para + infinitivo"
- Direto: «Fecha a porta!»
- Indireto: Ele pediu que eu fechasse a porta. (ou) Ele pediu para eu fechar a porta.
- Imperativo negativo → Negação + subjuntivo (imperfecto)
- Direto: «Não faças barulho!»
- Indireto: Ela pediu que eu não fizesse barulho. (ou) Ela pediu para eu não fazer barulho.
- Perfeito composto / Present perfect (tenho + particípio) → Pretérito mais‑que‑perfeito composto (tinha + particípio)
- Direto: «Tenho lido muitos livros.»
- Indireto: Ele disse que tinha lido muitos livros.
- Futuro perfeito → Condicional perfeito (teria + particípio) ou outra estrutura apropriada
- Direto: «Terei terminado o trabalho amanhã.»
- Indireto: Ela disse que teria terminado o trabalho no dia seguinte.
Observações importantes
- Nem todas as mudanças são obrigatórias: se o verbo introdutor está no presente (diz, afirma), costuma manter‑se o tempo original (ver abaixo).
- Ao recuar tempos, lembre‑se de ajustar também pronomes e expressões de tempo/lugar (ex.: hoje → naquele dia; aqui → ali).
- Direto: Maria diz: «Gosto de chá.»
- Indireto: Maria diz que gosta de chá.
Nota: mesmo com o verbo no presente, pode haver mudança por razões de sentido (por exemplo, para indicar que algo não é mais verdade) ou por estilo.
- Direto: Paulo dirá: «Voltarei amanhã.»
- Indireto: Paulo dirá que voltará amanhã. (ou) Paulo dirá que voltaria amanhã — depende do contexto e da nuance.
- Em perguntas que se respondem por sim/não usa‑se "se" (ou "se é que"). Além disso, no discurso indireto não há inversão sujeito‑verbo.
- Direto: «Você vem amanhã?»
- Indireto: Ele perguntou se eu vinha no dia seguinte.
- A palavra interrogativa mantém‑se, mas a ordem vai para a declarativa (sem inversão):
- Direto: «Onde fica a estação?»
- Indireto: Ele perguntou onde ficava a estação.
Exemplo com mudança de tempo:
- Direto: «Quando começa o filme?»
- Indireto: Ela perguntou quando começava o filme.
- Ordens e pedidos ficam normalmente introduzidos por verbos como pedir, ordenar, mandar, aconselhar e usam o subjuntivo (ou a construção para + infinitivo).
- Direto: «Fale com o diretor.»
- Indireto: Ela mandou que eu falasse com o diretor. (ou) Ela mandou‑me falar com o diretor.
- Direto: «Não saias tarde.»
- Indireto: Ele aconselhou‑me para eu não sair tarde. (ou) Ele aconselhou que eu não saísse tarde.
Observação sobre formas alternativas: Em português é muito comum usar o infinitivo com verbos como "mandar", "pedir" (ex.: "Mandou‑me fechar a porta"). Ambas as formas (que + subjuntivo e infinitivo) são usadas na fala e na escrita; escolha conforme o nível de formalidade e clareza.
Ao passar para o discurso indireto, é essencial adaptar referências pessoais e de tempo/lugar ao novo contexto.
- Substitua "eu" pelo nome ou pelo pronome que representa essa pessoa na nova frase.
- Direto: João: «Eu não sei a resposta.» → Indireto: João disse que não sabia a resposta.
- "Tu"/"você": convertem‑se conforme a posição na nova frase. Se o falante original falava com a pessoa que agora reporta, por vezes aparece "eu" na indireta.
- Direto (Maria para ti): «Tu és simpático.» → Indireto (tu a reportar): Maria disse que eu era simpática. (se quem reporta é a pessoa a quem Maria falava)
- "me/te/se/nos/vos" mudam para lhe/lhes/mim/ti/… conforme o novo sujeito e objeto.
- Direto: «Dá‑me o livro.» → Indireto: Ele pediu que lhe dessem o livro. (ou: Ele pediu para lhe darem o livro.)
Dica: muitas vezes é mais claro substituir pronomes por nomes próprios (Maria, João, eles) para evitar ambiguidade.
- hoje → naquele dia / nesse dia / naquele momento
- ontem → no dia anterior / no dia precedente
- anteontem → dois dias antes
- amanhã → no dia seguinte
- depois de amanhã → dois dias depois
- agora → naquele momento
- aqui / cá → ali / lá
- esta semana / este mês → naquela semana / naquele mês
Exemplos:
- Direto: «Hoje não posso.» → Indireto: Ele disse que naquele dia não podia.
- Direto: «Aqui é melhor.» → Indireto: Ela disse que ali era melhor.
Nem sempre é obrigatório recuar os tempos. Situações em que podemos manter o tempo original:
- Verdades gerais e factos científicos:
- Direto: «A água ferve a 100 ºC.» → Indireto: Ele disse que a água ferve a 100 ºC. (manter o presente é natural)
- Quando o verbo introdutor está no presente ou se a informação continua verdadeira:
- Direto: «Vivo em Lisboa.» → Indireto: Ela diz que vive em Lisboa. (se continua a viver)
- Registos jornalísticos ou literários podem optar pelo presente para maior vivacidade.
Em caso de dúvida, se o tempo referido já não é válido (ou se queres mostrar que a fala é passada), faz a concordância normalmente.
- Esquecer de mudar expressões de tempo (ex.: manter "amanhã" em vez de "no dia seguinte").
- Errado: Ele disse que vinha amanhã. (se o verbo introdutor está no passado e o contexto requer mudança)
- Certo: Ele disse que vinha no dia seguinte.
- Manter a inversão típica de perguntas em discurso indireto
- Errado: Ele perguntou: "Vem você?" → Ele perguntou: "Vem você?" (como frase direta)
- Certo: Ele perguntou se eu vinha.
- Usar pronomes sem ajustar a perspectiva (confusão entre "eu", "tu", "ele").
- Evite ambiguidade substituindo por nomes próprios quando necessário.
- Confundir o uso de "que + subjuntivo" com "para + infinitivo"; ambos existem, mas têm nuances de registo e clareza. Em contextos formais, "que + subjuntivo" é preferível para pedidos/ordens.
- Usar "se" em perguntas com palavra interrogativa (porquê/onde/como). Use a palavra interrogativa correta.
- Presente → Imperfeito:
- Direto: «Eu trabalho aqui.» → Indireto: Ela disse que trabalhava ali.
- Perfeito → Mais‑que‑perfeito composto:
- Direto: «Comi às 12.» → Indireto: Ele disse que tinha comido às 12 no dia anterior.
- Futuro → Condicional:
- Direto: «Partirei amanhã.» → Indireto: Ela disse que partiria no dia seguinte.
- Perifrástico (vou) → ia + infinitivo:
- Direto: «Vou telefonar depois.» → Indireto: Ele disse que ia telefonar depois.
- Pergunta sim/não:
- Direto: «Você está bem?» → Indireto: Ela perguntou se eu estava bem.
- Pergunta com "onde":
- Direto: «Onde está a chave?» → Indireto: Ele perguntou onde estava a chave.
- Ordem:
- Direto: «Não mexas nisso!» → Indireto: Ela mandou que eu não mexesse nisso. (ou) Ela mandou‑me para eu não mexer nisso.
- Discurso direto: reproduzir exatamente as palavras ditas, geralmente com aspas. Ex.: «Ele disse: "Vou embora."»
- Discurso indireto: relatar a fala sem aspas, adaptando tempos, pronomes e referências. Ex.: Ele disse que ia embora.
- Verbo introdutor: verbo que introduz o discurso (dizer, perguntar, pedir, afirmar, etc.).
- Concordância de tempos / sequência de tempos: regras que governam como ajustar tempos verbais ao relatar.
- Backshift (mudança de tempo): recuo dos tempos (ex.: presente → imperfeito) quando o verbo introdutor está no passado.
- Pretérito imperfeito: tempo verbal usado para ações habituais no passado ou para recuo do presente (ex.: eu estudava).
- Pretérito mais‑que‑perfeito composto: formado por "tinha + particípio" (ex.: tinha estudado) para indicar ação anterior a outra acción passada.
A gramática básica do discurso indireto é a mesma em Portugal e no Brasil. Há, no entanto, algumas preferências de registo e de formas:
- Em Portugal é muito comum o uso de construções com "mandou‑me fechar"; no Brasil também é usado, mas ouve‑se mais frequentemente "pediu para eu fechar" em registo coloquial.
- O uso de "tu" ou "você" varia regionalmente; adapte os exemplos ao tipo de português que estudas.
Para transformar discurso direto em indireto, identifica o verbo introdutor e a sua forma (passado, presente, futuro), recua os tempos quando o introdutor está no passado (com cuidado às exceções), e ajusta pronomes e expressões de tempo/lugar para manter a coerência. Quando houver dúvida, pensa em quem fala, a quem se falava e em que momento — isso ajuda a escolher a forma correta.
Se quiseres, posso transformar frases específicas (do português de Portugal ou do português do Brasil) de discurso direto para discurso indireto e explicar passo a passo cada mudança.